A tecnologia está transformando a engenharia e a construção civil em uma velocidade impressionante, e o exemplo mais recente desse avanço vem da França. Recentemente, foi concluído em Bezannes o ViliaSprint², considerado o maior edifício residencial multifamiliar impresso em 3D da Europa.
O projeto conta com 3 andares e abriga 12 apartamentos de habitação social. Mais do que um marco de engenharia, a obra funciona como uma prova real do potencial, da viabilidade e da alta eficiência que a automatização traz para o canteiro de obras contemporâneo.
Velocidade Recorde e Otimização no Canteiro de Obras
Um dos grandes destaques do projeto foi a eficiência logística e o tempo de execução. A estrutura das paredes externas e divisórias foi erguida em apenas 34 dias úteis de impressão, reduzindo consideravelmente os 50 dias que haviam sido previstos no planejamento inicial. No total, o cronograma geral da obra foi reduzido em 3 meses quando comparado aos métodos de construção convencionais.
Além da velocidade, os ganhos operacionais e de sustentabilidade chamam a atenção:
Redução drástica de desperdício: O descarte de material no canteiro caiu de 10% para apenas 5%.
Economia de recursos: Houve uma economia de cerca de 10% no volume de concreto, graças à geometria otimizada que a impressora consegue executar diretamente no local.
Segurança e ergonomia: O processo exigiu apenas 3 operadores para controlar o robô através de um tablet. Isso elimina o carregamento de peso excessivo por parte dos operários e diminui os riscos de lesões, trazendo modernidade para o ambiente de trabalho.
A Inovação do Material: Concreto de Baixo Carbono
O segredo por trás do sucesso do ViliaSprint² está na mistura extrudada pela impressora (uma COBOD BOD2). O material utilizado foi um concreto imprimível tecnológico desenvolvido pela Holcim, formulado dentro da linha ECOPact com redução de CO₂.
Essa mistura de matriz cimentícia de baixíssimo carbono incorpora agregados reciclados e matéria-prima local, sendo reforçada com macrofibras sintéticas. Esse avanço mineral prova que é possível aliar a alta performance da impressão automatizada com o compromisso ecológico, reduzindo significativamente a pegada de carbono da construção civil global.
O projeto atinge cerca de 60% de autossuficiência energética, integrando isolamento de perlita, estruturas de varandas em madeira e 500 m² de painéis fotovoltaicos, cumprindo com rigor as exigentes metas de sustentabilidade RE2020/2025 da França.
Links e Referências do Projeto:
Para quem deseja acompanhar os detalhes técnicos e conhecer as instituições responsáveis por esse marco tecnológico, acesse os sites oficiais:
Durante séculos, a terra foi um dos principais materiais utilizados pela humanidade para construir moradias. Hoje, essa tradição ganha uma nova dimensão ao encontrar uma das tecnologias mais avançadas da construção civil: a impressão 3D. O resultado dessa união é uma nova geração de edifícios capazes de reduzir impactos ambientais, diminuir custos, utilizar recursos locais e oferecer habitações mais saudáveis e acessíveis.
Na Habitar Raiz acreditamos que inovação não significa abandonar a tradição, mas sim utilizar o conhecimento tecnológico para potencializar materiais naturais e criar uma arquitetura regenerativa, humana e conectada ao meio ambiente.
A revolução da impressão 3D com terra
Diferentemente da impressão 3D convencional baseada em concreto, diversos centros de pesquisa ao redor do mundo estão demonstrando que é possível imprimir edificações utilizando terra crua, argila e fibras naturais.
Além de reduzir drasticamente o uso de cimento — um dos maiores emissores de CO₂ da indústria da construção — essa tecnologia permite utilizar o próprio solo do terreno como matéria-prima, reduzindo transporte, desperdício e geração de resíduos.
A impressão acontece camada por camada, formando paredes estruturais com grande precisão e liberdade de desenho, permitindo criar geometrias que seriam extremamente complexas pelos métodos convencionais.
Essa tecnologia representa um importante passo para a construção de cidades mais sustentáveis e resilientes.
IAAC e a impressora Pylos: democratizando a construção
Um dos projetos pioneiros é desenvolvido pelo Institute for Advanced Architecture of Catalonia (IAAC), na Espanha.
O pesquisador Sofoklis Giannakopoulos desenvolveu a impressora Pylos, projetada para construir utilizando terra como principal material estrutural.
O objetivo do projeto vai muito além da inovação tecnológica. A proposta é desenvolver um método construtivo capaz de produzir moradias de baixo custo utilizando materiais disponíveis praticamente em qualquer região do planeta.
A terra utilizada é um recurso:
abundante;
biodegradável;
reciclável;
de baixo custo;
disponível localmente.
Ao utilizar um material frequentemente associado ao subdesenvolvimento, o projeto procura mudar essa percepção, demonstrando que a terra pode fazer parte da arquitetura de alta tecnologia do século XXI.
Segundo os pesquisadores, essa abordagem poderá tornar possível produzir habitações extremamente acessíveis, principalmente em regiões que enfrentam déficit habitacional.
Lib Work e a Lib Earth House: uma casa totalmente funcional impressa em terra
Outro importante exemplo dessa evolução é a Lib Earth House Modelo B, desenvolvida pela empresa Lib Work em parceria com a empresa italiana WASP.
O projeto demonstra que a impressão 3D em terra já ultrapassou a fase experimental.
A residência possui todos os ambientes de uma casa convencional:
sala;
cozinha;
quarto;
banheiro.
As paredes são produzidas sem cimento, utilizando materiais naturais cuja principal matéria-prima é o solo.
Além da construção sustentável, a residência incorpora tecnologias inteligentes, como sensores capazes de monitorar continuamente temperatura e umidade das paredes.
O sistema ainda conta com geração de energia por painéis solares associada ao sistema Powerwall, permitindo autonomia energética e reforçando os princípios da economia circular.
Trata-se de um excelente exemplo de como tradição construtiva e tecnologia podem trabalhar juntas.
WASP: referência mundial em impressão 3D para arquitetura
A empresa italiana WASP é hoje uma das maiores referências mundiais na impressão 3D para construção civil.
Seu fundador, Massimo Moretti, defende uma ideia simples e extremamente poderosa:
Utilizar o material mais antigo da humanidade — a terra — aliado à tecnologia mais avançada disponível.
A empresa desenvolveu a impressora Crane WASP, um equipamento modular capaz de trabalhar com diversos materiais naturais, entre eles:
terra;
argila;
cal;
fibras vegetais;
agregados naturais;
materiais reciclados.
Esse sistema permite construir diretamente no local da obra, reduzindo significativamente desperdícios e transporte de materiais.
A filosofia da WASP está baseada na economia circular, na utilização de recursos locais e na democratização da construção sustentável.
TECLA: um novo paradigma para habitação sustentável
Talvez o projeto mais conhecido da WASP seja a TECLA, desenvolvida em parceria com o escritório do arquiteto Mario Cucinella.
Inspirada nos ninhos das vespas oleiras, a TECLA foi concebida para ser uma habitação completamente construída por impressão 3D utilizando argila retirada do próprio terreno.
O projeto busca responder simultaneamente a três grandes desafios da atualidade:
mudanças climáticas;
crise habitacional;
redução das emissões de carbono.
A casa é praticamente um sistema de construção de resíduos zero.
Toda sua matéria-prima provém do próprio local da obra, eliminando praticamente toda a logística de transporte de materiais.
Além disso, o projeto foi pensado para ser replicável em diferentes regiões do planeta, podendo contribuir para futuras comunidades autossuficientes em energia e recursos.
Mais do que uma casa, a TECLA representa uma nova visão sobre como podemos construir cidades.
O Campus de Terra Impressa em 3D do IAAC
Outro importante laboratório de pesquisa é o 3D Printed Earth Forest Campus, desenvolvido pelo IAAC.
O campus funciona como um laboratório vivo para experimentar novas soluções arquitetônicas utilizando terra impressa.
Entre seus projetos destacam-se:
TOVA
Primeiro edifício em terra impressa em 3D construído na Espanha.
O projeto demonstra como paredes de terra podem desempenhar diversas funções ao mesmo tempo:
estrutura;
conforto térmico;
controle natural da umidade;
ventilação;
proteção solar.
As paredes possuem cavidades internas que podem receber isolamento, instalações hidráulicas e elétricas, aumentando a eficiência construtiva.
TEIXIT
O TEIXIT amplia essa pesquisa ao investigar como paredes estruturais de terra podem permitir a passagem controlada da luz natural.
Graças à liberdade geométrica proporcionada pela impressão 3D, foi possível criar paredes porosas que filtram a luz solar sem comprometer sua resistência estrutural.
O resultado é uma arquitetura que alia conforto ambiental, eficiência energética e qualidade espacial.
Uma solução para a crise habitacional mundial
Segundo estimativas das Nações Unidas, bilhões de pessoas vivem atualmente sem acesso adequado à moradia.
Nesse contexto, a impressão 3D em terra surge como uma alternativa extremamente promissora.
Entre suas principais vantagens destacam-se:
redução expressiva dos custos de construção;
utilização de materiais locais;
menor emissão de carbono;
praticamente nenhum desperdício de material;
rapidez na execução;
possibilidade de personalização dos projetos;
excelente desempenho térmico;
conforto higrotérmico natural;
menor impacto ambiental.
Essas características tornam essa tecnologia especialmente relevante para programas habitacionais de interesse social.
Arquitetura saudável, sustentável e socialmente justa
Na Habitar Raiz acreditamos que construir vai muito além de erguer paredes.
Uma habitação saudável deve promover bem-estar físico, conforto térmico, qualidade do ar, iluminação adequada e conexão com a natureza.
A terra é um dos materiais que melhor responde a esses princípios. Sua elevada inércia térmica contribui para estabilizar a temperatura interna dos ambientes, enquanto sua capacidade natural de regular a umidade melhora significativamente o conforto ambiental.
Quando associada à impressão 3D, essa tradição construtiva ganha precisão, eficiência e velocidade, tornando possível levar arquitetura de qualidade para um número muito maior de pessoas.
A inovação tecnológica não substitui os materiais naturais — ela amplia seu potencial.
É justamente nessa integração entre conhecimento ancestral e tecnologia contemporânea que enxergamos uma das grandes oportunidades para construir cidades mais humanas, resilientes e ambientalmente responsáveis.
O futuro da construção talvez não esteja apenas em novos materiais, mas na redescoberta inteligente daqueles que sempre estiveram sob nossos pés.
A Arquitetura da Terra como Tecnologia de Empoderamento
A arquitetura contemporânea vive um momento de retorno às origens, e nenhum nome representa melhor essa revolução do que Francis Kéré. Natural de Gando, no Burkina Faso, e laureado com o Prêmio Pritzker em 2022, Kéré provou ao mundo que a “baixa tecnologia” da terra, quando aliada ao design de vanguarda, é a solução mais sofisticada para os desafios climáticos e sociais do nosso tempo.
A Filosofia: Arquitetura como Diálogo, não Monumento
Para Kéré, um edifício não deve ser um objeto estático, mas um processo educativo e comunitário. Sua prática rompe com a ideia de grandes estruturas de concreto importadas, focando em três pilares fundamentais:
Design Participativo: A comunidade não apenas usa o espaço, ela o constrói, adquirindo competências e gerando renda local.
Sustentabilidade Vernácula: Uso de materiais locais, como a terra, para minimizar a pegada de carbono e maximizar a inércia térmica.
Educação através do Espaço: Ambientes que ensinam, elevam a autoestima e promovem o bem-estar dos usuários.
A Tecnologia da Terra: Inovação em Gando
O projeto que definiu sua carreira foi a Escola Primária de Gando. Ali, ele desafiou a convenção de que escolas na África deveriam ser de concreto — material que retém calor e exige ar-condicionado caro.
As soluções técnicas de Kéré incluíram:
Tijolos de Terra Compactada: Fabricados no local, oferecem resfriamento natural e reduzem custos drasticamente.
Telhados Flutuantes: Estruturas metálicas elevadas que permitem a circulação de ar entre o teto e a cobertura, criando um sistema de ventilação passiva eficiente.
Engajamento Social: O envolvimento dos moradores garantiu que o projeto fosse abraçado como um patrimônio da própria aldeia.
Benefício do Uso da Terra
Impacto Técnico
Resultado para o Cliente
Inércia Térmica
Estabilidade de temperatura interna
Conforto sem gasto energético
Baixo Custo
Eliminação de transporte e matéria-prima cara
Viabilidade econômica
Biodiversidade
Materiais biorreceptivos e naturais
Saúde e bem-estar (Neuroarquitetura)
Do Burkina Faso para o Mundo: O Legado Global
O impacto de Kéré ultrapassou as fronteiras africanas. No Serpentine Pavilion (2017) em Londres, ele levou a essência da árvore — o ponto de encontro de sua aldeia — para o centro da metrópole, utilizando um óculo central para canalizar a água da chuva, celebrando a natureza em meio ao ambiente urbano.
Hoje, como professor em universidades como Harvard e Yale, ele molda a próxima geração de arquitetos, ensinando que a sustentabilidade não é um “adicional” ao projeto, mas a sua fundação.
“A arquitetura é, antes de tudo, um serviço à humanidade.” — Francis Kéré